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??/??/2025

Tenho certeza de que a vi sorrir...

A olhei de longe e lembrei do nosso passado, e ela? Ela parecia sorrir. Sorrir como alguém que caçoa, alguém que um dia assistiu em primeira mão o meu sofrimento.

Suas paredes ouviam minha barriga roncar.

Suas paredes assistiam cada corte ser desferido.

Suas paredes se deliciavam ao me ver rezando de joelhos.

Suas paredes sentiam o cheiro do sangue, de desilusão e da morte sempre à espreita.

Sempre à espreita.

Sempre à espreita.

Ela esteve do início ao fim, nos observando enquanto morríamos em silencio e constante sofrimento.

Hoje passei em frente ao meu antigo lar, estranho ainda ver de pé paredes que nos observaram morrer aos poucos, a olhei de longe, lembrei do nosso passado, e tenho certeza de que a vi sorrir.
texto 2
??/??/2025

Velando um corpo entre a vida e a morte.

A noite caia e o medo surgia como uma promessa do pior, e assim como um vigia eu observava, me certificando que a morte não a leva-se.
texto 3
??/??/2025

Há ratos na minha cabeça.

Seus dentes resistentes roem o que a de melhor em mim.

Eles bagunçam meu humor,

Defecam nos meus sonhos,

E tudo vira uma bagunça suja.
texto 4
19/02/2026

16/02/2026, segunda-feira, 9 dias antes do seu aniversário.

Meu pai me liga e diz que você lhe enviou uma mensagem sugestiva. O teor eu conheço bem: um tom de duplo sentido que já lhe acusei de usar. Ele diz que a senhora pediu para ele cuidar bem de mim. Eu me preocupo, mas também sinto raiva. Te ligo e pergunto como está, fingindo estar desentendida. Você me atende com uma voz um pouco grogue, e eu já fico em alerta. Pergunto se tomou alguma coisa, e você me diz que não; diz que está bêbada, que seu corpo está fraco, mas a cabeça está ligada. Você me garante que está bem, e eu cogito ligar para alguém. Será que estava planejando algo? Eu conheço os sinais. Já passamos por isso muitas vezes. Mas me acovardo e guardo minhas preocupações para mim. Pergunto se comeu, e você me diz que não. Passamos um tempo conversando, planejando. Pergunto o que quer de aniversário, e você me responde com desinteresse — desinteresse de quem não planeja estar presente no próprio aniversário. Brinco e digo que, como não sabe o que quer, então vou lhe dar crochê. Você responde fraco. Então os outros chegam, e você desliga. Fico aliviada por você não estar mais sozinha, mas ainda com um nó no peito.

17/02/2026, terça-feira, 8 dias antes do seu aniversário.

Eu durmo o dia todo. Recebo mensagens suas, mas não respondo de imediato. Me levanto tarde, como um pouco e, já tarde da noite, recebo uma ligação do Luiz. O coração aperta — já imaginando. Na verdade, eu sabia. Ele diz para eu não me preocupar, que já estava tudo controlado. Você tentou se matar. Dilacerou o seu braço com cacos do espelho do seu banheiro. Vocês estão no hospital, esperando ser atendidos. Falo com você, e sua voz denuncia culpa. Você me pede perdão, e eu mantenho a compostura. Não sei o que pensar nem o que sentir. A única coisa que faço é tentar te acolher. Desligamos a ligação, e eu não sei o que fazer — se fico ou se vou. Não chorei nem me desesperei. Na verdade, a minha calma me preocupa um pouco. Uma parte de mim acredita que gostaria que você tivesse morrido. Acho que já me despedi de você há muito tempo. Há tempos você está enterrada. Já disse antes: para mim, você é uma figura frágil que, a qualquer momento, não vai estar mais aqui.